quinta-feira, 1 de março de 2012

Sapiens, Socius, faber, loquens. E demens.Reflexão sobre texto de Edgar Morin.


A aparição do homem de Neanderthal inicia a era do cérebro grande.
A essa altura já somos sapiens, socius, faber e loquens.
A novidade trazida por ele foram duas: a sepultura e a pintura.
Qual a importância disso? O que isso demonstra?
Escavações nos dizem que as sepulturas neanderthalenses são mais do que um isolamento para a decomposição dos corpos.
A posição escolhida, os objetos que são enterrados com os mortos, flores depositadas com os corpos em alguns casos, demostram que essas cerimônias já denotavam uma mitificação/mistificação da morte.
Confluem nesse costume a compreensão da inevitabilidade da morte e a transformação de um estado em outro.
Acontece, portanto, além da morte a ideia da morte. E com a ela o advento do tempo e suas imposições, a consideração do agora, uma reflexão do conhecimento consciente.
Caminham juntos o conhecimento realista da transformação do corpo ( do ser vivo à matéria morta) e a crença do renascimento, a sobrevivência de um duplo em algum lugar.
Os funerais são, portanto, cerimônias para apaziguar a ira do morto e encaminhá-lo a esse novo plano esperado.
Dá-se aí o surgimento de um aparato mitológico mágico, místico,  no sapiens, que a partir disso se prepara para enfrentar, e por que não dizer, vencer a morte, através de uma transmortalidade.
Portanto, o imaginário e o mito são, nas sociedades sapientais, produto e coprodutores do destino humano.
O sapiens demonstra não aceitar a morte, tem uma crise e busca superá-la, através dos funerais.
A convivência dessa dupla consciência (o saber a morte e sua rejeição violenta) abre um espaço profundo, ocupado pelos mitos e ritos de sobrevivência.
E, ao longo da história humana, todas as religiões e filosofias buscarão a explicação para esse fato, e a cura para essa dor.
Curioso pensar que a objetividade e a subjetividade cresceram simultaneamente, e muito fortemente, no homem.
Ora, a irrupção da morte traz a irrupção da verdade e da ilusão, do palpável e do etéreo.
É isso que nos conta a sepultura.
E o que nos conta a pintura?
As pinturas demonstram um desenvolvimento nas cores, nos símbolos, nos grafitos, nos sinais.
O que é visto apenas como o nascer da arte pode ser visto também como o segundo nascimento do homem, o nascimento do Homo Sapiens.
O desdobramento geográfico traz novas aquisições, novo repertório e novas aptidões.
A destreza, habilidade, a técnica, mostra um novo saber fazer.
A pinturas, que parecem ser uma demonstração do dia a dia, sobretudo na questão da caça, desdobra-se para uma produção própria do espírito, uma representação do desejo com imagens, símbolos, ideais.
A magia que é trazida através do conhecimento da morte e os funerais toca indelevelmente a sociedade nascente e essa criação artística.
Duas interpretações advém daí: a atividade artística tem uma finalidade estética que se encerra em si mesmo ou essa arte tem uma finalidade ritualística e mágica.
É possível inferir vários desdobramentos para a criação artística.
Decoração, adorno a escultura a pintura podem trazer valores de proteção e sorte. A procura pelo gozo estético também é uma possibilidade.
Esse momento de efervescência produtiva faz com que todos os sentidos dos humanóides passem a ser mais utilizados nessa procura criativa.
Toda essa procura faz com que o sapiens passe a ter contato com seu interior, seu íntimo, seu espírito. Isso faz com que brote a instabilidade do sentimento humanóide.
O riso, o choro, a alegria desenfreada, a tristeza profunda, o contato com seu imaginário. A ordem está na cultura, na sociedade. Mas a ordem humana se desenvolve sob o signo da desordem.
Esse ser cheio de contradições, afeito ao mítico, a quimera, que tem relações incertas e antagônicas com o mundo objetivo, com seus todos seus excessos, faz com que pensemos no Sapiens Demens.
E é imperativo que se perceba, que esse homem, com toda essa "loucura" tenha se espalhado pelo mundo e se tornado o senhor do planeta. Que o que poderia ser uma sentença de morte tenha sido justamente um trunfo para sua maravilhosa adaptação às situações adversas e as vicissitudes apresentadas.
Que exatamente por essa característica tenha conseguido essa trajetória vitoriosa.
O ser humano é um louco sensato.


                                                          

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O início de uma era: a consciência do olhar.

A necessidade da representação do real sempre foi presente na espécie humana.
Desde o homem do paleolítico e suas impressões nas cavernas até hoje, buscamos entender nossa existência através da busca de uma representação universal.


Existe uma mudança da forma na estruturação desse conteúdo imagético ao longo da historia da humanidade, mas como ele se dá?
Embasado em que? Visando o que?




O desenvolvimento da técnica artística sofreu muitas mudanças, mas ao longo de quase cinco séculos se bastou com o sistema  conhecido como perspectiva artificiais, que nos faz pensar que a expressão artística surge, necessariamente, no interior da experiência humana, do contexto histórico, espiritual, político pelo qual o artista passa.
A sistematização dessa perspectiva, essa invenção do "ponto de fuga" , pode nos parecer hoje simples e lógico, mas é sabido que cada cultura tem seu próprio sistema de percepção e de representação.


Assim sendo, a "representação do real", a partir do Renascimento, coincide com o nascimento do antropocentrismo, uma mudança radical para nossa história.


Para entender essa revolução, é necessário lembrarmos do pensamento medieval,com suas bases aristotélicas. Para Aristóteles havia um centro absoluto do mundo e lugares diferenciados, para os quais tendiam respectivamente os objetos, de acordo com sua natureza. O novo espaço, ao contrario, não é mais qualitativo e heterogêneo: ele é sem limite e dotado de unidade em si próprio, sendo anterior aos objetos que nele se situam. 


Como afirma Pomponius Gauricos no inicio do século XVI tratando da perspectiva: “O lugar existindo antes do corpo posto neste lugar, deve necessariamente ser fixado graficamente em primeiro.”


Essa criação artística, numa análise mais ampla, nasce da necessidade do homem se colocar no centro, de colocar seu olhar liberto de uma ordem superior e sobre-humana, se transforma, enfim, em um ser onisciente, afastando-se da cosmogonia da Idade Média.




Esse momento acontece justamente quando o homem renascentista busca fazer um contraponto ao status quo, estabelecido: realeza e clero.
Então, muito embora essa descoberta pareça estar liberta de ideologias, uma simples busca mecânica de "imitação da natureza", ela vem carregada de intencionalidade.


Procura - e consegue, de fato - instituir uma visão elaborada por um olho/sujeito, que define o que será visto, dando o seu recorte do todo.


Essa perspectiva criada no Renascimento, portanto, traz à tona um novo recentramento, a instalação do sujeito transcendental, uma consciência que dá origem ao sentido, substituindo o egocentrismo cristão.


É so no decorrer do século XIX que os pintores começam a não mais obedecer tão cegamente a essa visão, notadamente Cézanne, que se rebela contra os cânones renascentistas.




Simultaneamente, a fotografia recém descoberta, resgata a perspectiva em crise.
As câmeras fotográficas, descendentes diretas das famosas câmeras obscuras, recuperam todos procedimentos renascentistas de construção da informação visual.


A partir disso o fotógrafo passa a ocupar o lugar do olho/Deus que um dia foi do pintor.


Carregada da intenção do autor, a imagem fotográfica seria hoje apenas um eco do grito do humanismo burguês renascentista.


Agora há de se pensar nas questões ideológicas que envolvem uma produção autoral.




Eu acredito não haver imparcialidade em uma composição fotográfica.
O recorte do real feito a partir de meu olhar, mediado pela máquina ótica e seus recursos, não é imune a meus propósitos, a minha bagagem cultural, ao meu repertório pictórico.
A transição do mundo tridimensional que vejo para mundo bidimensional que criarei trará muito do que penso e quero para o suporte final, induzindo o sujeito que verá essa imagem a pensar o que penso.
Mas essa discussão é por demais complexa, e apenas começa aqui.