quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O início de uma era: a consciência do olhar.

A necessidade da representação do real sempre foi presente na espécie humana.
Desde o homem do paleolítico e suas impressões nas cavernas até hoje, buscamos entender nossa existência através da busca de uma representação universal.


Existe uma mudança da forma na estruturação desse conteúdo imagético ao longo da historia da humanidade, mas como ele se dá?
Embasado em que? Visando o que?




O desenvolvimento da técnica artística sofreu muitas mudanças, mas ao longo de quase cinco séculos se bastou com o sistema  conhecido como perspectiva artificiais, que nos faz pensar que a expressão artística surge, necessariamente, no interior da experiência humana, do contexto histórico, espiritual, político pelo qual o artista passa.
A sistematização dessa perspectiva, essa invenção do "ponto de fuga" , pode nos parecer hoje simples e lógico, mas é sabido que cada cultura tem seu próprio sistema de percepção e de representação.


Assim sendo, a "representação do real", a partir do Renascimento, coincide com o nascimento do antropocentrismo, uma mudança radical para nossa história.


Para entender essa revolução, é necessário lembrarmos do pensamento medieval,com suas bases aristotélicas. Para Aristóteles havia um centro absoluto do mundo e lugares diferenciados, para os quais tendiam respectivamente os objetos, de acordo com sua natureza. O novo espaço, ao contrario, não é mais qualitativo e heterogêneo: ele é sem limite e dotado de unidade em si próprio, sendo anterior aos objetos que nele se situam. 


Como afirma Pomponius Gauricos no inicio do século XVI tratando da perspectiva: “O lugar existindo antes do corpo posto neste lugar, deve necessariamente ser fixado graficamente em primeiro.”


Essa criação artística, numa análise mais ampla, nasce da necessidade do homem se colocar no centro, de colocar seu olhar liberto de uma ordem superior e sobre-humana, se transforma, enfim, em um ser onisciente, afastando-se da cosmogonia da Idade Média.




Esse momento acontece justamente quando o homem renascentista busca fazer um contraponto ao status quo, estabelecido: realeza e clero.
Então, muito embora essa descoberta pareça estar liberta de ideologias, uma simples busca mecânica de "imitação da natureza", ela vem carregada de intencionalidade.


Procura - e consegue, de fato - instituir uma visão elaborada por um olho/sujeito, que define o que será visto, dando o seu recorte do todo.


Essa perspectiva criada no Renascimento, portanto, traz à tona um novo recentramento, a instalação do sujeito transcendental, uma consciência que dá origem ao sentido, substituindo o egocentrismo cristão.


É so no decorrer do século XIX que os pintores começam a não mais obedecer tão cegamente a essa visão, notadamente Cézanne, que se rebela contra os cânones renascentistas.




Simultaneamente, a fotografia recém descoberta, resgata a perspectiva em crise.
As câmeras fotográficas, descendentes diretas das famosas câmeras obscuras, recuperam todos procedimentos renascentistas de construção da informação visual.


A partir disso o fotógrafo passa a ocupar o lugar do olho/Deus que um dia foi do pintor.


Carregada da intenção do autor, a imagem fotográfica seria hoje apenas um eco do grito do humanismo burguês renascentista.


Agora há de se pensar nas questões ideológicas que envolvem uma produção autoral.




Eu acredito não haver imparcialidade em uma composição fotográfica.
O recorte do real feito a partir de meu olhar, mediado pela máquina ótica e seus recursos, não é imune a meus propósitos, a minha bagagem cultural, ao meu repertório pictórico.
A transição do mundo tridimensional que vejo para mundo bidimensional que criarei trará muito do que penso e quero para o suporte final, induzindo o sujeito que verá essa imagem a pensar o que penso.
Mas essa discussão é por demais complexa, e apenas começa aqui.

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