A aparição do homem de Neanderthal inicia a era do cérebro grande.
A essa altura já somos sapiens, socius, faber e loquens.
A novidade trazida por ele foram duas: a sepultura e a pintura.
Qual a importância disso? O que isso demonstra?
Escavações nos dizem que as sepulturas neanderthalenses são mais do que um isolamento para a decomposição dos corpos.
A posição escolhida, os objetos que são enterrados com os mortos, flores depositadas com os corpos em alguns casos, demostram que essas cerimônias já denotavam uma mitificação/mistificação da morte.
Confluem nesse costume a compreensão da inevitabilidade da morte e a transformação de um estado em outro.
Acontece, portanto, além da morte a ideia da morte. E com a ela o advento do tempo e suas imposições, a consideração do agora, uma reflexão do conhecimento consciente.
Caminham juntos o conhecimento realista da transformação do corpo ( do ser vivo à matéria morta) e a crença do renascimento, a sobrevivência de um duplo em algum lugar.
Os funerais são, portanto, cerimônias para apaziguar a ira do morto e encaminhá-lo a esse novo plano esperado.
Dá-se aí o surgimento de um aparato mitológico mágico, místico, no sapiens, que a partir disso se prepara para enfrentar, e por que não dizer, vencer a morte, através de uma transmortalidade.
Portanto, o imaginário e o mito são, nas sociedades sapientais, produto e coprodutores do destino humano.
O sapiens demonstra não aceitar a morte, tem uma crise e busca superá-la, através dos funerais.
A convivência dessa dupla consciência (o saber a morte e sua rejeição violenta) abre um espaço profundo, ocupado pelos mitos e ritos de sobrevivência.
E, ao longo da história humana, todas as religiões e filosofias buscarão a explicação para esse fato, e a cura para essa dor.
Curioso pensar que a objetividade e a subjetividade cresceram simultaneamente, e muito fortemente, no homem.
Ora, a irrupção da morte traz a irrupção da verdade e da ilusão, do palpável e do etéreo.
É isso que nos conta a sepultura.
E o que nos conta a pintura?
As pinturas demonstram um desenvolvimento nas cores, nos símbolos, nos grafitos, nos sinais.
O que é visto apenas como o nascer da arte pode ser visto também como o segundo nascimento do homem, o nascimento do Homo Sapiens.
O desdobramento geográfico traz novas aquisições, novo repertório e novas aptidões.
A destreza, habilidade, a técnica, mostra um novo saber fazer.
A pinturas, que parecem ser uma demonstração do dia a dia, sobretudo na questão da caça, desdobra-se para uma produção própria do espírito, uma representação do desejo com imagens, símbolos, ideais.
A magia que é trazida através do conhecimento da morte e os funerais toca indelevelmente a sociedade nascente e essa criação artística.
Duas interpretações advém daí: a atividade artística tem uma finalidade estética que se encerra em si mesmo ou essa arte tem uma finalidade ritualística e mágica.
É possível inferir vários desdobramentos para a criação artística.
Decoração, adorno a escultura a pintura podem trazer valores de proteção e sorte. A procura pelo gozo estético também é uma possibilidade.
Esse momento de efervescência produtiva faz com que todos os sentidos dos humanóides passem a ser mais utilizados nessa procura criativa.
Toda essa procura faz com que o sapiens passe a ter contato com seu interior, seu íntimo, seu espírito. Isso faz com que brote a instabilidade do sentimento humanóide.
O riso, o choro, a alegria desenfreada, a tristeza profunda, o contato com seu imaginário. A ordem está na cultura, na sociedade. Mas a ordem humana se desenvolve sob o signo da desordem.
Esse ser cheio de contradições, afeito ao mítico, a quimera, que tem relações incertas e antagônicas com o mundo objetivo, com seus todos seus excessos, faz com que pensemos no Sapiens Demens.
E é imperativo que se perceba, que esse homem, com toda essa "loucura" tenha se espalhado pelo mundo e se tornado o senhor do planeta. Que o que poderia ser uma sentença de morte tenha sido justamente um trunfo para sua maravilhosa adaptação às situações adversas e as vicissitudes apresentadas.
Que exatamente por essa característica tenha conseguido essa trajetória vitoriosa.
O ser humano é um louco sensato.
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